quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Bué da Baldas?! Tásse bem.

Publicado pelo autor no Diário de Aveiro, na sua edição do dia 1 de Movembro de 2007.

Crónicas dos Arcos
Bué da Baldas?! Tásse bem.

O ensino, em Portugal, mesmo que disfarçado por dados estatísticos que apenas representam números e não realidades, está, definitivamente, pelas “horas da morte”.
Como se já não bastasse, quer para o normal exercício do processo pedagógico, quer para o funcionamento eficaz da própria estrutura escolar, a degradada relação professor - ministério, a Sra. Ministra da (des)Educação, a expensas de uma pedagogia empolada, vem reestruturar, não a necessária exigência do nível de ensino e dos seus currículos, nem as estruturas escolares, mas sim o estatuto do aluno, transformando-o (ao estatuto e ao aluno) numa “arrozada” de falta de sentido de responsabilidade, de respeito, de exigência, de maturidade e de sentido de justiça.
Aliás, neste aspecto, a escola transformou-se na observância diária do ditado: “paga o justo pelo pecador”.
É que a escola, há alguns anos a esta parte, tem servido de “cobaia laboratorial” para alguns pseudo-pedagogos irem desfiando um inúmero rol de experiências na educação e ensino, sem terem em conta os mais elementares princípios da formação humana: sentido de responsabilidade, respeito, justiça, equidade, convivência e construção social.
Como podemos querer ter um país desenvolvido, cultural, social e economicamente, se, desde muito cedo, descuramos a formação das nossas crianças e jovens?! À custa de muitos computadores, muita Internet e muito “choque tecnológico”?
Hoje, o esvaziamento do processo de formação e aprendizagem no ensino é preocupante.
A valorização do sucesso, dos mais aptos, do mérito e do esforço é claramente superada pela irresponsabilidade, o laxismo, o facilitismo e o absentismo.
Da mesma forma que o ranking escolar que o ministério da educação quer “sacudir do seu capote” e que não reflecte a realidade das escolas (apenas o resultado estatístico de provas de exame), os dados divulgados em relação ao insucesso escolar (e a sua redução em 7%, mesmo assim situando-se acima da média europeia) não retratam a realidade do nosso ensino: cada vez menos exigente (pense-se na questão dos exames no 6º - 9º e 12º anos), com programas curriculares cada mais vazios e simplistas (para não dizer medíocres), incapaz de formar e preparar o futuro, de responsabilizar, de devolver a autoridade e o respeito ao professor, etc..
É fácil dizer-se que o insucesso e o abandono escolar está, hoje, num patamar estatístico melhor do que há alguns anos atrás. Da mesma forma que é fácil dizer hoje que, tais valores, se devem a um ensino cada vez menos exigente, onde reina o facilitismo, a injustiça e a irresponsabilidade.
Onde se coloca em “pé de igualdade” os que se esforçam, cumprem e os que faltam e que sentem que a sua irresponsabilidade pode ser premiada com um mero exame correctivo (ou os que forem necessários). Isto não é pedagogia é irresponsabilidade e deformação.
A escola forma cada vez menos e pior.
Os jovens sentem que aprender é algo tão banal que não existe o sentido de esforço, mérito, dedicação, responsabilidade. Tudo é fácil e permitido. Como se a vida assim o fosse no futuro.
A escola está vazia, o papel do professor está destituído de respeito e valor.
Sinais que se reproduzem no tempo, no ensino superior, na formação, na sociedade, na vida profissional …
Hoje, só não termina o 12º ano quem não quiser mesmo. Nem que para isso convenha faltar muito e realizar muitas provas correctivas. Talvez aí consiga aprender mais do que nas aulas.
O essencial da escola e da educação ficou por resolver: melhor língua portuguesa, melhor matemática, mais científico, mais humanísticas - melhor formação. Mais sentido de responsabilidade e mérito.
Mas o importante, pelos vistos, foi transformar o professor num mecanismo administrativo e de “pombo-correio” para avisar os pais que as faltas injustificadas são iguais às justificadas; criar mais burocracia com mais provas (as correctivas) e servirem de polícias para revistarem os alunos à entrada das salas para dar cumprimento ao estipulado (aquilo que o respeito e a educação deveria, por si só, resolver) que não permite que se leve tecnologia (de bolso) para as aulas.
Mas aprender é coisa para o ensino privado…