sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

À nossa saúde!

Publicado na edição do dia 23 de Janeiro de 2008, do Diário de Aveiro.

Crónicas dos Arcos
À nossa saúde!

Facto: a adversidade bateu à porta de uma família de Anadia, originada pelo falecimento de um bebé de apenas dois meses.
Aqui deveria terminar esta crónica. Nada justifica que se faça aproveitamento da infelicidade dos outros para justificar as nossas posições e convicções.
Ou melhor. Nada… a não ser o desespero, a insegurança, a revolta!
Não sei se, em alguma circunstância, alguém poderá afirmar que a vida daquele bebé poderia ser mantida se a urgência do Hospital de Anadia não tivesse sido encerrada. Mas também não é tolerável querer-se condicionar a legitimidade de sustentar a dúvida do contrário. Até porque, pasme-se, o bebé foi assistido às portas do Hospital de Anadia, perante uma plateia de “curiosos” no exterior e de pessoal do sector da saúde “colado” às janelas, observando de forma impotente ao esforço inglório dos colegas dentro da ambulância.
E isto não é uma questão de aproveitamento político. É uma contestação de factos.
Hoje, em Portugal, nasce-se e morre-se à beira de uma estrada, no interior de uma ambulância.
Esta é a imagem de insegurança e de perda de qualidade de vida que as populações vão sentindo, cada vez mais. Ou pelo menos uma grande parte delas.
Até por uma questão de justiça e equidade.
Não se pode pedir a um cidadão do interior desertificado e desestruturado que se sinta tão português como alguém dos grandes centros urbanos, para as quais basta percorrer meia dúzia de quarteirões para ter acesso a todo e qualquer cuidado de saúde.
O resto do país é paisagem… pelo menos aquela que ainda vale a pena contemplar.
Na saúde, as pessoas (ao contrário de um dos grandes lemas da campanha eleitoral do actual governo) são meros dados estatísticos, são números. No ensino o reflexo é idêntico. Na relação estado - cidadão, idem “aspas, aspas”.
Este também é um aproveitamento político. Deste modo, pelo lado governamental. O não assumir responsabilidades, o não saber reconhecer os erros estratégicos e políticos que sustentam reformas sem estruturação eficiente, apenas assentes numa lógica estatística e economicista.
O que é aproveitamento político é a incapacidade e humildade para reconhecer o erro e refazer a política do Serviço Nacional de Saúde, culpabilizando o mediatismo dos factos.
Sabe-se e comprova-se que existem inúmeras situações (em alguns casos, maioritariamente) de excesso das chamadas “falsas urgências”. Mas estas acontecem em qualquer ponto do país e em qualquer hospital, por exemplo, nos grandes centros - Porto e Lisboa. Nada justifica o desvalorizar da saúde dos cidadãos (e em alguns casos da própria vida). Também é conhecida a leviandade estúpida das pessoas com o excesso de falsas chamadas para o INEM. No entanto, não se concebe sequer o encerramento do serviço (espera-se, claro).
Assim, quantos euros é que valerá, para o Ministério da Saúde, uma vida?!
As populações têm o direito a sentirem-se desprotegidas, desamparadas, injustamente preteridas. Isto não é política… é sobrevivência! Embora para muitos pareça populismo ou sensacionalismo. Principalmente para aqueles que vivem “paredes-meias” com todos os facilitismos, que tudo têm “à mão”.
Os profissionais da saúde têm o direito (aliado ao dever ético-deontológico) de exercer com dignidade a sua actividade e não com a crescente pressão da falta de estruturação e organização do sector.
A saúde entrou em coma. Está doente, desarticulada e é ineficaz.
Perdeu o respeito pela pessoa e pelo princípio fundamental e inalienável que é o direito à vida e à dignidade humana.
Assim progride a nação. Assim cresce a sociedade.